Biografia

WASHINGTON NOVAES: ÉTICA E AFETO

Publicado em: 15/12/2009

Nascido em 1934 na pequena Vargem Grande do Sul, cidade hoje com pouco mais de 20 mil habitantes, na Serra da Mantiqueira, no Estado de São Paulo, Washington Novaes é filho de Henrique de Britto Novaes, professor escolar e político local, e de Arlinda Rodrigues Novaes, costureira, espanhola de nascimento, imigrada aos dois anos de idade da Galícia para as lavouras cafeeiras do Brasil.

Do pai, herdou, entre outras coisas, o espírito público e os rigorosos padrões éticos que marcaram sua vida pessoal e profissional. O professor Henrique lutou na Revolução Constitucionalista e foi vereador da pequena Vargem Grande por mais de um mandato, chegando a assumir a prefeitura, como presidente da Câmara Municipal. Nesta ocasião, presenciou o episódio que o faria abandonar a política e que o marcaria com certa amargura até a morte. Convidado ao Palácio dos Bandeirantes para uma solenidade ao lado do então governador Adhemar de Barros, sua referência política, ouviu, em tom de galhofa, da boca de seu ídolo e líder, a afirmação de que seu contador fugira com as sobras do caixa dois de sua última campanha. Retornou a Vargem Grande do Sul desiludido e anunciou à esposa que abandonaria a vida política.

Dos avós maternos e de Dona Arlinda, herdou a obsessão pelo trabalho, que os tirara da vida no limite da sobrevivência na Europa do início do século XX e como cidadãos de segunda classe no Brasil que os recebia para substituir o trabalho escravo. Arlinda só parou de trabalhar aos 90 anos, seis apenas antes de falecer, quando a visão já não mais lhe permitia costurar.

Washington cursou o primário em Vargem Grande do Sul, o ginasial em um colégio interno da Ordem dos Irmãos Maristas, em Poços de Caldas (MG), concluindo o colegial na cidade de São João da Boa Vista (SP). Passou então no vestibular para curso de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, na Universidade de São Paulo. Mudando-se para a capital, frequentava as aulas durante o dia e trabalhava à noite no setor de compensação de um banco. Formou-se bacharel em 1958.

Nesta época, já trabalhava como revisor no jornal Folha da Manhã, sob a chefia daquele que se tornaria um amigo para toda a vida, o jornalista Aloysio Biondi. Graduado, abriu um escritório de advocacia. Dividiu-se por dois anos entre as duas profissões, mas logo concluiu que sua vocação de fato residia no jornalismo.

Logo ascendeu na carreira dentro do jornal e iniciou o percurso que o levaria a passar pelas redações de praticamente todos os grandes veículos de comunicação do país: Veja, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Última Hora, Visão, Correio da Manhã, O Jornal e Gazeta Mercantil, entre outros.

Em 1960, casou-se pela primeira vez com Maria do Carmo Camargo Paschoal. Desta união, resultariam seus dois primeiros filhos, Marcelo, nascido em 1961, e Guilherme, em 1967.

Em 1965, muda-se com a família para o Rio de Janeiro. Lá, amigo de Zuenir Ventura, Hélio Pelegrino, Ziraldo, Jânio de Freitas, Glauber Rocha e outros, se envolveria em vários dos eventos de contraposição e protesto que marcaram o negro período da ditadura militar. Washington, junto com Zuenir e Ziraldo, testemunhou o assassinato pelos militares do estudante Edson Luís, no Calabouço, situado atrás do prédio da Revista Visão, evento que detonaria uma série de protestos e o endurecimento da repressão, culminando com a grande Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. Seu testemunho ajudou a demolir a versão defendida pelos militares de que os policiais haviam reagido a agressões dos estudantes e lhe custou dois inquéritos policiais militares que só foram extintos com a Lei da Anistia.

Em 1972, Washington casa-se pela segunda vez, Com Virgínia Augusta da Costa, goiana de Jataí, também jornalista. Deste casamento, nasceriam Pedro, em 1974, e João Henrique, em 1978.

Em 1977, Washington se transferiu para a Rede Globo de Televisão. Junto com Paulo Gil Soares, Eduardo Coutinho, Walter Lima Júnior e outros ajudou a estruturar o Globo Repórter e a conduzi-lo em sua fase áurea, de onde saíram alguns dos mais importantes documentaristas brasileiros. É desta época o início de sua preocupação com a questão ambiental e seu primeiro contato com povos indígenas, dois temas que marcariam sua carreira e que o consagrariam profissionalmente.

Em 1980, realizou, para o Globo Repórter, o documentário “Amazonas: a Pátria da Água”, premiado no Festival de Televisão de Nova Iorque. Nesta mesma época, viajou ao Xingu pela primeira vez.

Em 1981, começa a escrever uma coluna semanal para o jornal Diário da Manhã, de Goiânia, por indicação do amigo Marco Antonio Coelho. Em seu quarto artigo, que expunha sua visão a respeito da função, responsabilidades e ética da profissão de jornalista, foi convidado por Batista Custódio para dirigir o jornal, assegurando-lhe total liberdade e autonomia para realizar um projeto novo, profundamente inovador, democrático e livre de imprensa, infelizmente até hoje pouco conhecido.

Muda-se então, em 1982, para Goiânia e recruta alguns profissionais de fora para se juntarem à empreitada de um jornal aberto e democrático. Vieram Aloysio Biondi, José Antonio Menezes – o Pindé – e Reinaldo Jardim, idealizador e fundador d’O Sol, outro projeto revolucionário de imprensa.

Este Diário da Manhã durou menos de dois anos, mas sua fabricação se embasava num conselho de redação democrático para a decisão da pauta e fechamento das matérias, e num conselho de leitores com ampla participação de todos os setores da sociedade e reuniões diárias com o corpo editorial para avaliação e direcionamento do jornal. Por conflitos internos e externos, sobretudo com o governo estadual e com o empresariado, insatisfeitos com a liberdade do jornal, o projeto ruiu. O DM à época se tornara o principal jornal de Goiânia, com tiragem maior que O Popular, e começava a ganhar destaque na mídia nacional. Novaes não voltaria a dirigir um jornal e qualifica o Diário da Manhã como sua grande experiência profissional.

Foi então que Washington recebeu o convite da Intervídeo, produtora então dirigida por Walter Salles, Roberto D’Ávila e Fernando Barbosa Lima, para conceber e dirigir uma série de TV sobre os povos indígenas do Brasil. Questões logísticas e de custos levaram à decisão de limitá-la aos povos do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso. Nascia a série de documentários “Xingu – A Terra Mágica”, exibida em 1985 com enorme sucesso e repercussão, um trabalho equiparado pelo antropólogo Rodolfo Gutilla, , por seu papel para o conhecimento da cultura brasileira, a “Casa Grande e Senzala”, o grande clássico de Gilberto Freyre.

A série Xingu foi aplaudida pelo mundo afora, recebendo prêmios em Cuba e na Coréia do Sul, e sendo homenageada com uma sala especial na prestigiada Bienal de Artes de Veneza, em 1986. A versão compacta da série se tornaria depois um dos homevideos mais vendidos do país, com mais de 70 mil cópias comercializadas. Washington retornaria ao Xingu três anos depois para a realização de mais uma série, intitulada “Kuarup, Adeus ao Chefe Malakuyauá” e publicaria pela Brasiliense também o livro “Xingu – Uma Flecha no Coração”, contendo o diário de sua viagem de 1984.

Desde essa época, já escrevia regularmente sobre o tema de meio ambiente, externando sua preocupação com o desequilíbrio da relação da espécie humana com nosso planeta e a temeridade de nossos padrões excessivos de consumo. Seus trabalhos nesta área se destacam pela profundidade das análises, pela solidez das informações e por seu embasamento em incessante pesquisa de fontes científicas e jornalísticas.

Em 1991, recebe o convite do Governador Joaquim Roriz para assumir o cargo de Secretário de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia do Distrito Federal, que exerceria por dois anos. Ali, levaria adiante a luta pelo conhecimento, defesa e preservação do Cerrado, o bioma menos conhecido e mais devastado do país.

Washington, antes e depois, trabalharia também como consultor na área ambiental e do desenvolvimento para importantes instituições nacionais e internacionais: PNUD, Unesco, Organização Mundial de Saúde e Ministério do Meio Ambiente, entre outras. Nesta última, coordenou os trabalhos de integração e edição da Agenda 21 Brasileira.

Desde 1997, trabalha também como consultor da TV Cultura do Estado de São Paulo, tendo ajudado a reformular o jornalismo deste canal de TV, e supervisionando o programa Repórter Eco e outros de conteúdo ambiental.

Foi com o apoio da TV Cultura e numa nova parceria com a Intervídeo, que, em 2006, Novaes retornou ao Parque Indígena do Xingu para realizar uma nova série de documentários, mostrando desta vez as transformações ocorridas desde a série anterior, 22 anos antes. Com seis episódios e patrocinada pela Petrobras e pela Natura, ela foi exibida em 2007, com grande repercussão pela TV Cultura e Rede Pública de TV.

Washington participou ao longo das décadas de 1990 e 2000 de todas as mais importantes conferências sobre meio ambiente e desenvolvimento, em diferentes posições. Em 1992, esteve na Conferência do Rio como Secretário de Meio Ambiente do DF e como jornalista, escrevendo diariamente para o Jornal do Brasil. Em 1997, acompanhou a Conferência Rio+5, e em 2002 esteve na África do Sul para a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável como enviado especial da TV Cultura.

Além de seus artigos semanais, hoje publicados em O Estado de S. Paulo e em O Popular, Washington é autor de vários livros: Xingu, uma flecha no coração (Editora Brasiliense, 1985), A quem pertence a informação (Editora Vozes, 1997), A Terra pede água (Edição Sematec, 1992) e A Década do Impasse (Editora Estação Liberdade, 2002). Colaborou ainda como um dos autores em: Irã, a força de um povo e sua religião (Editora Expressão e Cultura, 1979), TV ao Vivo (Editora Brasiliense, 1988), Hélio Pellegrino – A-Deus (Editora Vozes, 1989), Informação e Poder (Editora Record, 1994), Índios no Brasil (Ministério da Educação e do Desporto, 1994), Meio Ambiente no Século XXI, (Editora Sextante, 2003), Brasil em Questão – a Universidade e a Eleição Presidencial (Editora UnB, 2003), Saúde nos Grandes Aglomerados Urbanos – Uma Visão Integrada (Organização Pan-Americana de Saúde e Organização Mundial de Saúde, 2003).

Premiado com seus documentários em vários festivais no mundo, Washington recebeu também, em 1990, o importante Prêmio Rei de Espanha de Jornalismo, pela série de artigos “A Amazônia e o Futuro da Humanidade”, o prêmio “Golfinho de Ouro”, em 1988, por sua obra na TV,o Prêmio Esso Especial de Ecologia e Meio Ambiente, em 1992, , o prêmio da Câmara Americana de Comércio, em 2002, pelo documentário “Biodiversidade – O Primeiro Mundo é Aqui”, o Prêmio Embratel pelo documentário “A Década da Aflição”, e o Prêmio Unesco de Meio Ambiente, em 2004. Em 1987, recebeu o título de cidadão goiano, conferido pela Assembléia Legislativa do Estado de Goiás, e em 2005, o de cidadão goianiense, dado pela Câmara Municipal de Goiânia. Em 2009, a Universidade Federal de Goiás conferiu a Washington o título de Doutor Honoris Causa pelo seu trabalho como jornalista e em prol do meio ambiente, honraria concedida até hoje a apenas 11 pessoas nos mais de 50 anos desta instituição.

Washington segue vivendo em Goiânia e já tem quatro netas.