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Para não importar mandioca
Publicado em: 19/08/2010Jornal O Popular
No final da década de 70, o cientista Paulo Tarso Alvim, com seu vasto conhecimento sobre agricultura, botânica, biodiversidade, alertava para mudanças que aconteceriam com o início de um novo ciclo, principalmente com o avanço da soja. Mostrava ele que seria algo semelhante ao que aconteceu com a chegada do homem branco às Américas: o processo de substituição das plantas alimentícias nativas, adequadas às condições de solo e clima locais, por plantas trazidas do hemisfério Norte e só adequadas às condições daquelas áreas. Plantas como a soja, o trigo e outras, de ciclo curto, poucos meses entre plantio e colheita (para fugir ao inverno rigoroso do Norte, que não suportariam). As variedades locais – como a mandioca, principalmente -, ao contrário, são plantas resistentes, de ciclo longo, de até mais de um ano entre plantar e colher; e adaptadas aos solos locais, de baixo teor de nitrogênio (ao contrário dos solos europeus e norte-americanos). Plantar espécies de ciclo curto por aqui exigiria a importação de quantidades fantásticas de fertilizantes, herbicidas e outros produtos. Lembrava ele que, na mandioca e no milho mal havíamos saído das tecnologias legadas pelo índio. Mas não demoraria a chegar o tempo em que pagaríamos “os olhos da cara” para usar tecnologias importadas: “Se a mandioca fosse norte-americana, o mundo todo já estaria consumindo mandioca flakes ou tapioca puffs.”
Quem olhar hoje o nosso modelo tecnológico no setor vai admirar-se com a profecia de Paulo Tarso Alvim – fertilizantes importados; sementes controladas por um oligopólio de produtoras, principalmente de sementes transgênicas; mecanização dependente de royalties e patentes externas, transporte e embalagens idem; comercialização dependente de um cartel mundial. O Brasil tornou-se o maior importador mundial de agrotóxicos, 16% do total produzido, 1,06 milhão de toneladas anuais, no valor de US$6,8 bilhões por ano. O consumo de 2009 significa que são usados 22,3 quilos de produtos químicos por hectare cultivado e que cabem a cada brasileiro 3,2 quilos de agrotóxicos por ano em 15 a 20 alimentos. Os herbicidas representam 632,2 mil toneladas anuais, os fungicidas 127,8 mil toneladas. À soja cabem 530,1 mil toneladas/ano em 23,2 milhões de hectares; ao milho, 143,7 mil toneladas; ao algodão, 69,6 mil toneladas. 85% das sementes provêm de uma única empresa, que cobra royalties por seu uso.
Tudo isso no momento em que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirma ser possível aumentar em 50% a produção de alimentos – inclusive soja - sem aumentar os fertilizantes, apenas com injeção de bactérias no solo. Os caminhos estão descritos no estudo Manejo Sustentável da Biodinâmioca Subterrânea. É uma notícia que provavelmente alegrará Paulo Tarso Alvim. Assim como outra, divulgada pelo Instituto Ethos, de que vai entrar em operação uma indústria brasileira (pertencente a uma das maiores empresas de construção do país) que toma a fécula da mandioca (amido ou polvilho) como alternativa para insumos industriais escassos ou questionáveis por causa dos impactos ambientais que produzem. A fécula será utilizada na produção de remédios, na indústria do papel, indústria de alimentos e até na área do petróleo, na lubrificação de brocas.
As instalações industriais em Vitória da Conquista (BA), por exemplo, operarão graças a um convênio com a Cooperativa Mista Agropecuária de Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia – o que é outra boa notícia, porque incorpora ao processo a agricultura familiar. Esta, embora represente 84,4% dos estabelecimentos agrícolas, só tem 25% da área total no país. Mas gera 38% do valor da produção (R$54,4 bilhões/ano): 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite, 21% do trigo, 59% do plantel de suínos, 50% das aves, 30% dos bovinos. E no campo ainda estão hoje 18,9% da população brasileira (16,5 milhões de pessoas ocupadas e 11,8 milhões de trabalhadores temporários).
A fábrica baiana, que começará operando com 100 toneladas diárias e espera dobrá-las em pouco tempo, dispensará intermediários e atravessadores – trabalhará com 2200 pequenos agricultores. E levará a produção de doces e biscoitos ao grande mercado –, assim como espera chegar às grandes indústrias dos ramos têxtil, farmacêutico e petrolífero. Outra unidade, em Laje, também na Bahia, trabalhará com amido de mandioca. O empreendimento tem apoio da Fundação Banco do Brasil e do BNDES.
São caminhos que parecem ser interessantes. Inclusive porque revertem a tendência de aumentar o uso de fertilizantes e agrotóxicos, que já envolve questões graves – inclusive de saúde. Ou a que é apontada pelo PNUMA, de 100 milhões de toneladas anuais de nitrogênio que chegam aos oceanos carreadas das lavouras pela chuva e pelos ventos e que constituem a principal razão da perda da biodiversidade marinha – questão gravíssima.
Talvez com esses novos caminhos também não tenhamos de importar mandioca flakes e tapioca puffs. E possamos ter mais saúde e mais dinheiro no bolso, vivendo em um ambiente mais saudável.





