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A festa das poluidoras
Publicado em: 08/07/2010Jornal O Popular -
Misteriosamente, há duas semanas entrou de novo em funcionamento a usina termelétrica Xavantes II, ao lado de uma subestação da Celg, na região Norte da cidade, ao lado do conjunto Nossa Morada, não longe do campus da UFG. Junto com ela, a usina Goiânia II, na saída para São Paulo. Ambas já haviam funcionado durante algumas semanas, há dois anos, e foram desativadas após fortes protestos dos moradores das duas áreas, martirizados pela poluição resultante da queima de óleo diesel (700 mil litros por dia), pelo barulho infernal durante as 24 horas do dia e pelo despejo de resíduos dos geradores num córrego. Agora, tão misteriosamente quanto entrara, a Xavante saiu de funcionamento poucos dias depois, quando já se organizavam novos protestos. Mas nenhuma satisfação foi dada à sociedade. A explicação extraoficial era de que se fornecia energia “à Argentina” (ora vejam !).
Há dois anos, numa audiência pública, a agência ambiental do Estado informava que não conseguira localizar o processo de licenciamento da Xavantes II. E a agência municipal dizia que não podia tomar providências rigorosas porque a competência era estadual. Argumentava-se ainda que o desligamento súbito poderia provocar um “apagão” em Goiânia (como se a energia ali gerada não entrasse numa rede interligada nacionalmente). Agora, nada é informado – como se a sociedade não tivesse direitos.
Fora a questão local das várias poluições, a sociedade brasileira continua a ser embromada pelo argumento federal de que é preciso aumentar muito a oferta de energia para não se correr o risco de “apagões” – mas sem discutir a questão da matriz energética nacional. E ignorando vários estudos, principalmente o da Unicamp/WWF, de 2006, que já dizia ser possível o país tranquilamente viver com 50% menos de energia: poderia economizar 30% com programas de eficiência energética e conservação de energia, tal como fizera no ”apagão” de 2001, quando a redução do consumo foi dessa ordem – sem que até hoje se mostre uma só atividade que tenha tido prejuízos com a redução do consumo (a não ser a produção e distribuição de energia). O argumento de “prejuízos à economia” pode ser desmontado com o que aconteceu nos Estados Unidos após o “choque do petróleo” de 1973, quando programas de eficiência e conservação fizeram com que o consumo de energia não aumentasse em um só quilovate durante 15 anos, até 1988 – e nesse período o PIB norte-americano cresceu 40%. O segundo caminho indicado pelo estudo da Unicamp era a repotenciação de geradores de usinas mais antigas, que trabalham com baixa geração. Isso poderia ser feito a custos muito menores que o da construção de novas megahidrelétricas. Um terceiro caminho seria a redução das perdas nas nossas redes de transmissão de energia, que estão no patamar inacreditável de 15 a 17% da energia transmitida, quando o Japão, por exemplo, só perde 1%.
Mas as autoridades se fazem de surdas a esses estudos e continuam com a estratégia de construir grandes usinas, principalmente na Amazônia, que obedece à lógica de interesses do cartel de grandes empreiteiras. No caso mais recente, de Belo Monte, elas sequer entrarão com o dinheiro, que virá praticamente todo do BNDES e de fundos públicos, para um custo estimado em R$15 bilhões na licitação mas que chegará a R$30 bilhões, segundo as próprias empreiteiras. Com a agravante de que a energia não se destinará à Amazônia, e sim em grande parte às produtoras de alumínio e ferro gusa, que os exportarão para os países industrializados, que não querem arcar com os custos ambientais e sociais da produção. Nesses setores de produção, a energia representa perto de 50% do custo. E o Brasil dá nas tarifas das empresas do primeiro mundo que vêm produzir aqui, assim como das nacionais, um subsídio desse porte, que gera muitos bilhões de prejuízo – repassados para as contas de energia de todos os brasileiros (como já foi o caso em Tucuruí). E a Amazônia que se dane: Macapá, capital do Amapá, por exemplo, tem 70% de sua energia gerada em termelétricas movidas a óleo diesel (que os consumidores de energia de todo o país também pagam em parte).
As termelétricas, aliás são parte importante dessa estranha matriz energética. São altamente poluidoras, sua energia é muito mais cara que a das hidrelétricas, - principalmente a advinda da queima de carvão mineral -, e em grande parte do tempo nem precisam funcionar, embora sejam remuneradas como se o fizessem. E elas têm tido forte preferência nos leilões de energia promovidos pela ANEEL, com o argumento de que outras energias “alternativas”, como a eólica e a solar, seriam mais caras (tudo depende de que custos entrem na conta que não é feita). Sem falar em que só o potencial de produção de energia a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar equivale a “três Belos Montes”, segundo o ex-ministro Roberto Rodrigues (O Estado de S. Paulo, 11/6)
E assim vamos, nessa festa das empreiteiras, produtoras e distribuidoras de energia. Estas últimas, “predominantemente estrangeiras”, segundo o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, tiveram um lucro que “cresceu 230% durante o governo Lula”. Para ele, o consumidor brasileiro “é sangrado pelo custo da energia elétrica e subsidia as exportações de alumínio, aço, celulose de fibra curta, ferro-silício e ferro-manganês, entre outros”(Portal do Meio Ambiente, 29/6).
Quando o goianiense ouvir a barulheira das termelétricas locais, “gerando energia exportada para a Argentina”, saberá que é disso tudo que se trata.





